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Os Sentidos Superiores



Por Altino Lopes Filho.

Certamente, desde a primeira manifestação da consciência humana inquiridora, o ímpeto de compreender as essências absolutas das coisas em tempo algum se atenuou. A forma em se buscar este objetivo tem sido modificada, de acordo com a heterogeneidade das culturas e dos meios disponíveis.

Veio-me à mente uma questão tão palpável quanto preocupante, referente à consideração das coisas somente de um ponto de vista eminentemente prático; este objetiva auferir respostas com menor risco de decepções. É o receio prévio do fracasso sem mesmo se ter executado o projeto: não tento novas concepções e também não corro riscos.

Conduzir-se predominantemente pela racionalidade pode ter aparentes vantagens numa abordagem imediatista, mas é uma visão facetada da realidade, como se colocássemos uma lâmpada em uma caixa que somente possuísse abertura em um único lado. A claridade ilumina no lado onde a abertura se encontra, porém a luminosidade não aparece dos outros lados e tudo existente nessas posições não é destacado. É um desvairamento às inversas, pior, aceitamos como sendo a mais cândida sensatez. Entretanto, ainda mais grave é o pragmatismo exacerbado, aborteiro dos sonhos, por estes não estarem fundados no racional, no referencial, no palpável ou na experiência ordinária e nascerem das emoções mais profundas e independentes, distantes dos condicionamentos limitadores. Os sonhos são nossa única liberdade, nada os pode anuviar, à exceção de nós mesmos. Sem eles, resta-nos o que?

Imagino ser possível estabelecer muitas respostas a esta pergunta. Mas tendo presenciado o racionalismo rondando-me, acautelei-me ao constatá-lo rejeitando sair do estabelecido um centímetro sem a certeza absoluta de onde fincaria o próximo passo, só plagiando modelos, não ousando sequer questionar abstratamente, apegando-se ao fundamentado e de domínio comum.

Observo a maioria das pessoas seguindo a corrente dos acontecimentos comuns se sucedendo todos os dias, sem muita ponderação permitindo ao longo dos anos o fluxo da vida conduzir a um tipo de banalidade do cotidiano.

Apesar do homem ser definido como ser racional e pensante, suas mais duradouras e importantes obras foram geradas quando não pensava, não conceituava e não calculava. Diz-se então, ser essa a força inspiradora do brilhantismo do gênio, privilegiativa de apenas poucos superdotados, vez por outra, surgindo para ungir com novas idéias todos os outros seres humanos de pouco talento. A respeito deste ponto surgem as justificativas do fato de acordo com a visão segmentada de quem alega possuir a explicação, seja pela ótica científica, esotérica, religiosa, etc.. Provavelmente, cada uma dessas tentativas de averiguação das causas do porquê algumas pessoas se mostram geniais, comportará uma parte de verdade, por ser o todo em síntese construído com somatória desses fragmentos.

Entretanto, quando se busca um conhecimento sem condicionamentos ingênuos, a respeito de pessoas que, inequivocamente, alcançaram ao longo da história um impressionante destaque e atingiram o mais alto grau do potencial intelectual, admissível de poder galgar o espírito humano, um viés comum claramente se manifesta a todos. Não como uma aptidão ou um talento notável, excepcional ou único de uns poucos, mas como distinta condição privilegiando maciçamente a humanidade.

A idéia é aclarada na diáfana sensibilidade das palavras de Akira Kurosawa: “Todos nós somos gênios quando sonhamos”. Permitir a manifestação da nossa sensibilidade superior de forma positiva e construtiva é ultrapassar a grande fronteira passível de separar o medíocre do excepcional, estando dentro de nós mesmos esta perspectiva.

Disse um mestre Zen: “Quando tu o procuras, ele não está; se tu não o procuras, ele se manifestará.” Com comovente paralelismo ao pensamento Zen, Albert Einstein dizia que problemas importantes não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento que foram criados.

Há mais de dois mil anos atrás, da milenar sabedoria chinesa, surgiu um ensinamento de grande contemporaneidade. Disse Lao Tsé que a vida autênticaparece com a água, que a tudo se adapta porque a tudo se submete. Não reside nestas palavras qualquer sentido de resignação e sim uma postura universal frente a realidade continuamente se transformando, para compreende-la impõem-se com igual freqüência a incorporação de novos paradigmas.

Em todas as ocasiões nas quais o desconhecido, o inusitado, o radicalmente não convencional surge de maneira inesperada e visita sem cerimônia nossa delgada capacidade compreensiva, um difícil obstáculo se antepõe na superação dos paradigmas que dão sustentação a nossa tênue conceituação da realidade.

Por que nos submetemos a esse pavor quase doentio quando nossos paradigmas são desafiados? Talvez, oriundo da perspícua necessidade humana de inserção social, nos atemoriza expor conceituações não plenamente estabelecidas como verdades admitidas, receando a desaprovação, o descrédito ou a pecha de sonhador da parte dos nossos semelhantes. Há uma tendência de rotularmos pejorativamente qualquer conceito ou idéia, incluindo seu formulador ou divulgador, quando não encontra-se raízes nos ditames estáveis da sociedade.

Estamos fortemente condicionados a assim agir, inconscientemente queremos de alguma maneira nos punir quando, mesmo no íntimo, pensamentos arranham a imagem da sensatez projetada como segura. A história é rica em exemplos nesse sentido e altos tributos pagaram muitos daqueles que ousaram abalar o estabelecido como verdadeira realidade.

Empenhamo-nos no transcorrer dos últimos séculos em promover a racionalidade ao status de sinônimo exclusivo do mais elevado perfil intelectual humano. Vemo-nos agora mediante a capacitação que esta aptidão nos conferiu, na premência de desenvolver emoções superiores, durante tanto tempo relegadas à atrofia, como única forma de nos estruturar para utilizamos nossas habilidades de modificar a natureza em proveito da transformação positiva dos seres vivos e não motivados em objetivos mesquinhos e imediatistas. Uma missão difícil, porém necessária, sendo talvez a única oportunidade de não nos encontrarmos no futuro em um irremediável desastre. Verdadeiramente mais importante que a racionalidade, os elevados sentimentos internos, se devidamente estimulados, alicerçarão o equilíbrio necessário em direção da evolução espiritual humana, a essencial capacidade para sustentar o poder advindo com o conhecimento científico e as tecnologias atuais.

Não somos mais que uma criança sustentando nas mãos um recipiente em cujo interior alberga-se uma força capaz de construir ou destruir, dependerá unicamente da maneira como a utilizaremos. Debater se esse imenso poder deveria estar disponível ao alcance da criança, a esta altura é irrelevante, o fato está ai e não há como evitá-lo. A alternativa situa-se na criança que deverá transmutar, antes de abrir a caixa terá a obrigação de tornar-se amadurecida e fazer a opção certa. De toda plêiade de emoções sublimes uma seguramente conhecemos, faltando cultivá-la adequadamente. A força análoga e grandiosa manifestada na generalidade dos seres vivos, a poderosa ligação espiritual transcendente: o amor. Excede a dimensionalidade física e manifesta-se em uma linguagem universal e interdimensional.

Caberá encontrarmos a chave da felicidade perene estimulando todas as nossas células a vibrarem nesta freqüência sublime. Um simples enunciado que requer milênios de aprendizado. Somente quando o espírito humano compreender o amor universal tornando-se fonte irradiante permanente desta energia, libertar-se-á definitivamente do sofrimento e não será a tecnologia, exclusivamente, que nos dará essa possibilidade. Tão difícil é para a pedra bruta dos primitivos sentimentos humanos, transformar-se...

Daí, mesmo sem acreditarmos ou nos conscientizarmos a toda a hora recebemos ajuda e indicação para a árdua tarefa. A consciência de certos fenômenos nos bate à porta às vezes inesperadamente e por sua própria conta, freqüentemente nos fechamos e ignoramos sua presença nos escondendo, numa atitude cômoda. Entretanto, existem situações que de alguma forma parecem estar vinculadas com as nossas existências, em um grau de relação tal, não nos permitindo evitá-las, mais dia ou menos dia temos de encará-las frente à frente, por mais assombrosas que à primeira vista essas misteriosas realidades possam parecer.

Verdadeiramente nada é casual, todos os acontecimentos tem um sentido universal embutido, o grande desafio é afinar a nossa predisposição psicofísica para nos sensibilizarmos positivamente com fenômenos que nos acossam a todo instante e ainda não são integralmente compreendidos racionalmente.

A ciência e a tecnologia atuais brindaram a humanidade com prazeres de rara satisfação, anteriormente jamais experimentados, ao menos da forma como os conhecemos. Aparentemente acreditamos ter curvado a natureza aos nossos pés, como se a tornáramos vassalo do poderoso reino que “nos pertence” e se expande continuamente.

Laçamos nossos dedos aos confins do sistema solar, o olhar a muito mais longe, milhões, bilhões de anos luz, investigamos intimidades ultramicroscópicas da matéria e, preterimos de mirar para dentro de nós mesmos, a região do universo mais importante de ser atingida, de ser pesquisada e de ser compreendida.

Buscamos a felicidade além fronteiras, — a contínua busca individual de todo humano — iludimo-nos cultuando a tecnologia atual e acreditando que a satisfação por ela oferecida nos conduziria a um bem estar incessante. A cada vez ansiando maior satisfação através do conhecimento científico aplicado à produção de bens de consumo, encontramos mais freqüentemente a causa suprema da infelicidade: a perda da dignidade. Perde quem não obtém o mínimo para si, à sua sobrevivência física; perde, igualmente, quem não obtém o mínimo para si, à sua evolução interna e espiritual.

A dignidade é o respeito para com si mesmo, expresso no crescimento interno, que só se dá pela própria experiência. Ao acreditar que outros ou algo serão capazes de fazê-lo em detrimento do esforço próprio, esta se dando os primeiros passos no caminho da desilusão. O homem desiludido caminha a procura de alguém que lhe prometa a bem-aventurança ou lhe acene com o impossível e por fim lhe assevere tanger a felicidade que por si mesmo não pôde alcançar. Então nesse exato momento o homem enredou-se no maior dos problemas: esperar dos outros algo que ele mesmo não tem condição de conseguir. Muitas correntes de pensamento têm seguidores porque um acha que o outro poderá resolver os seus problemas. Porém quando aquele em que tinha fé falha, à vista disso, sente-se traído e da desilusão parte para o desespero.

A busca do conhecimento, as pesquisas, a incansável procura pelas origens do passado e o desenvolvimento tecnológico devem continuar, mas precisam prosseguir como fonte de sabedoria para a humanidade, caso contrário tudo aprendido será mal empregado. A pesquisa, a tecnologia, as máquinas, não são boas nem ruins porque não tem vontade própria. Está em nós conduzi-las positivamente buscando a verdadeira evolução.

Nesse sentido, há uma passagem que sempre medito sobre ela. Conta-se que um jovem guerreiro japonês, por conviver diariamente com a vida e a morte devido à sua profissão, começou a questionar-se sobre o problema do outro mundo. Desejava saber o que era o céu e o inferno. Quando seu coração já não podia suportar esse mistério, dirigiu-se a uma montanha longínqua em busca de um sacerdote ancião que o iluminasse com seus ensinamentos. Após muito caminhar, ao encontrá-lo, saudou-o reverentemente e lhe disse:

— Oh! Venerável senhor... Desejaria que me instruísse sobre o que é o céu e o inferno.
— Esta pergunta é mais própria de um camponês do que de um guerreiro como tu. A menos que sejas um camponês disfarçado. – Respondeu o mestre.
— O que dizes? – Surpreso, replicou o jovem samurai.
— Digo que nem pareces um guerreiro, não só pela infantil pergunta, senão também pelas roupas que trazes.
A esta altura o acidental discípulo se mostrava vermelho de raiva em vista de semelhantes insultos, mas o sacerdote prosseguiu:
— A tua falta de controle confirma a minha suposição.
Já não suportando mais, o samurai desnudou a sua espada 39 e a sua ira.
Neste momento com um gesto enérgico o monge lhe disse:
— Observa, observa: isto é o inferno.
Sentindo-se como que atravessado por uma flecha de vergonha, o jovem abaixou a cabeça. Guardou cerimonialmente a espada e falou:
“ Os samurais eram guerreiros aristocratas que seguiam um rígido código de honra não escrito, conhecido como Bushi-Dô, pelo qual não se admitia desembainhar a espada para uma ameaça fútil. Por isso, dizia um ditado: “A espada quando sair da bainha terá do sangue que provar”.
— Perdão, senhor, agora compreendo o vosso ensinamento.
Ao que o mestre respondeu:
— Isto é o céu.

O mestre ancião em sua elevada sabedoria indicou ao jovem buscante de inspiração encontrar a verdade dentro do próprio coração. Sua lição foi mais longe ao apresentar a dualidade como conflito do espírito ainda ancorado na interpretação da realidade do mundo pela relação de duas coisas entre si. E, indiretamente, referiu-se aos sentidos superiores em nós albergados, capazes de nos trazerem muitas respostas. Céu e inferno, bem e mal, certo e errado, estarão dentro de nós enquanto a iluminação — a capacidade de observar a realidade como ela é — não nos alcançar. Os seres privilegiados graças aos seus extraordinários esforços e que galgaram a iluminação interna, superaram a confusão de pensamento característica do dualismo, vêem dentro da realidade sem obstáculo algum de idéias ou emoções errôneas.

Albergamos no íntimo da mente humana a dualidade, e no integral transcorrer da vida embatemos de um pólo ao outro na dicotomia presente em todos os eventos que nos envolvem nesta jornada. Não raro, fazemos uma opção embasada no mais absoluto pragmatismo racional e lá dentro mesmo não sabendo bem onde, contorce-se uma força imensa em oposição ao critério estabelecido nos níveis mais superficiais da mente.

Nas mais importantes e decisivas avaliações existenciais quanto nas mais triviais da vida mundana, uma indicação inexoravelmente sinaliza o rumo de maior propriedade, a escolha mais adequada, não condicionada aos interesses imediatistas, mais sintonizada à nossa essência maior.

Racionalidade e dualidade são frutos da mesma semente, inserem-se no âmbito do referencial, são instrumentos que nesta etapa de evolução não podemos dispensar ainda. Porém, se desejamos usufruir plenamente da oportunidade fenomenal a nós concedida, — a vida — feita também por merecimento próprio, em tempo algum esqueçamos de cultivar a intuição em toda a sua plenitude. No mais das vezes, pouco valor creditamos a este sentido superior, existente para nos auxiliar nos difíceis desafios da nossa árdua senda. Na verdade, não aprendemos a cultivar, treinar e aperfeiçoar a sensibilidade dos sentidos superiores, tal qual procedemos culturalmente com os sentidos físicos, que em anos a fio, submetemos a um extenuador treino; ao fim das contas, desse modo condicionados, só reconhecemos o universo por sua intermediação. E assim, inconscientemente, dispensando a parte mais importante do nosso potencial, concluímos por conhecer menos da realidade, dificultando e atrasando nosso processo espiritual.

Para finalizar:

...Os sonhos são tal qual,
Um oceano, majestoso e poderoso
Que necessita estar harmônico com o ambiente,
Pois em desarmonia arrasa e destrói
Ilimitada é a força dos sonhos
Traz a evolução e a felicidade
Ilimitada é a força dos sonhos
Quando em desarmonia com a intuição,
Traz regressão e desgraça

Os sonhos são tal qual,
Um fio de vida florescente dentro do espírito
Esta luz dará rumo aos teus passos,
Quando as trevas da noite se alojarem,
E não houver luar para aclarar tua jornada,
Buscarás a luz dos teus sonhos,
No fogo do teu espírito

Não magoes alucinadamente e sem trégua os teus sonhos,
Estarás correndo os alicerces que te sustentam
Não incrustes em teu espírito a dor incontida dessa mágoa,
Estarás sendo consumido como o fogo à vela,
Mas não darás calor nem luz a ninguém, nem a ti próprio
Perderás teus dias e perderás tuas noites,
E quando te extinguires, nem saberão que exististes

Saibas sempre conciliar o coração à mente
Quando um estiver fraco, fortaleça o outro,
E teu espírito sempre crescerá
O homem dominado somente pela razão,
É tão desprezível quanto àquele,
Dominado somente pelo coração
É no equilíbrio que se encontra a harmonia
E é na harmonia que se encontra a paz

Um dia te lembrarás e não terás sofrimento,
Mas hoje, tua lembrança e tua dor são irmãs
Amanhã talvez,
Tuas lágrimas não verterão por estes motivos,
Mas hoje não as contém e tantas vezes não as contivestes
Amanhã talvez,
Teus sonhos estejam tão saciados,
Que não te importarás com esperanças,
Mas hoje tanto esperas
Amanhã talvez,
Tuas ansiedades tenham encontrado guarida,
Mas hoje te consomem vivo
E um dia talvez,
A paz de teu espírito seja duradoura,
Mas hoje para que ela se assente é tão difícil

Como será teu futuro?
Não sabes embora anseies em sabê-lo,
Hoje saberás o que precisas

Teu caminho é o da Procura e teu reino é o da Verdade
Não poderá ninguém assim viajar, sem encontrar dificuldades,
Que te parecerão maior que a tua própria sina
E não quererás encontrar a verdade dentro de tantas mentiras,
Sem que as tuas mãos te doam de tantos vasculhares,
E bolhas brotem dos teus pés de tanto andares

Teu caminho será difícil
E mais difícil a cada ponto que passares,
E a cada vitória que conquistares
Muitas vezes encontrarás o sofrimento como cama,
E a dor por agasalho
E perguntarás de que vale procurar tanto,
Se quanto mais se busca,
Mais se encontram decepções na própria busca...

Não te entristeças muito porque teu coração chora,
Vá... Pois teu caminho é longo e teu tempo é escasso.


Bibliografia: O Viajante da Aurora



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